10 de abr de 2011

Entrevista a ANDRÉ TRIGUEIRO, Mudanças Climáticas

A pauta ambiental está vencendo o desafio de ganhar espaço nas redações?

A. T.: Entendo que é um processo em andamento. Hoje estamos numa situação melhor do que a que estávamos num passado não muito distante, mas muito aquém do que eu consideraria ideal. Qualquer pesquisa que procure mensurar os espaços dos assuntos ambientais na mídia, em qualquer mídia, vai apurar que há um interesse maior em tratar desse assunto.

Ainda há, e esse é um problema, o privilégio do desastre. Os assuntos ambientais alcançam mais espaço dentro da dimensão da catástrofe. É o caso das mudanças climáticas: períodos de estiagem, vazamento de óleo, crescimento desordenado da cidade, perda de biodiversidade. A dimensão da catástrofe continua determinando um maior espaço associado a meio ambiente, e isso não é bom.

Como superar essa barreira?

A. T.: Aqui no Brasil nós sentimos a ausência, nos cursos de comunicação, de uma disciplina que dê um mínimo de embasamento sobre os grandes problemas ambientais da atualidade. Mudanças climáticas, escassez de recursos hídricos, desertificação do solo, transgenia irresponsável, produção monumental de resíduos, consumismo desenfreado e irracional, perda de biodiversidade, crescimento desenfreado das cidades... Tudo isso poderia ser reunido em uma disciplina fundamental, para que os jornalistas não saiam da faculdade e repliquem um problema que se repete que é o analfabetismo ambiental.

Muitos dos recém-graduados em Jornalismo saem das faculdades inaptos para cumprir a função social que está contemplada na profissão. Essas instituições de ensino ainda não estão produzindo um nível satisfatório de conhecimentos que assegure ao novo profissional de imprensa a noção dos rudimentos dessa área que é multidisciplinar.

Meio ambiente não é um assunto da moda, mas sim um assunto que veio para ficar, e nós não conseguimos estruturar na grade curricular dos cursos de comunicação um pacote mínimo de informação, replicando o problema da produção de informação pouco qualificada. Acredito que a solução comece na formação dos profissionais.

Há fragilidade na contextualização dos temas?

A. T.: No curso da PUC (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), onde sou
coordenador, procuro dar um embasamento teórico que considero fundamental para se fazer perceber a importância da contextualização. Trabalhamos alguns textos dos pensadores Edgar Morin e do Fritjof Capra que conseguem demonstrar que a percepção da realidade que nos cerca preconiza um olhar sistêmico. Não dá para analisar os fenômenos do universo de forma estanque, separada e fragmentada porque tudo se relaciona com tudo.

Por isso, volto a dizer que o primeiro ponto é acertar a mão na formação dos alunos. Existe algo mais do que a informação técnica. Existem a ética, a visão de mundo, o envolvimento com o tema, o ato de se apropriar desses conteúdos e também a percepção de que nós somos responsáveis pelo que está acontecendo, com o nosso estilo de vida. Somos uma civilização eco-suicida.

O programa "Cidades e Soluções" foi o primeiro programa da televisão brasileira a neutralizar carbono. Como surgiu a iniciativa?

A. T.: A idéia de neutralizar as emissões de carbono no programa surgiu em outubro de 2006, quando fizemos um programa sobre esse assunto. Ocorreu-me a idéia de dar o exemplo, mas não faço disso um marketing verde. Isso só significa que a gente tem condição de reduzir o impacto, pois plantar árvores ajuda, atenua o impacto, mas não acaba com o aquecimento global.

Como manter o tema das mudanças climáticas em pauta?

A. T.: Precisamos descobrir quem está fazendo certo, os países, as empresas, as experiências locais, as escolas, as universidades, os grupos de amigos. Temos que dar visibilidade ao problema, visibilidade ao que precisa ser feito para resolver a quetão. A calibragem tem que ser dada sem alarmismo, de modo a manter a mobilização e a consciência que remetem a uma nova atitude. É preciso fazer o que está ao nosso alcance e pensar num legado. É importante mostrar que é nossa a responsabilidade pelos rastros que deixamos no planeta.

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