27 de abr de 2011

Quioto facilita 'falsos cortes' de emissões globais

Estudo afirma que o Protocolo, que calcula a pegada de carbono no país que produz e não no que consome mercadorias, está ajudando nações ricas a cumprir metas que não são significantes do ponto de vista internacional


Nesta segunda-feira (26/04) foi divulgada com destaque pela imprensa mundial a redução de 7,2% nas emissões de gases do efeito estufa da União Européia em 2009, o que aproximou o bloco de sua meta de um corte de 20% nas emissões até 2020.

Porém, muitos alertam que esse tipo de corte não seria real, pois na verdade o que estaria acontecendo é que o setor industrializado dos países ricos estaria perdendo espaço para competidores em nações em desenvolvimento ou, ainda, enviando para lá suas fábricas.

Assim, a ilusória redução se daria porque segundo o Protocolo de Quioto, que obriga os países industrializados signatários a cortar suas emissões, o cálculo da pegada de carbono é feito com base na produção e não no consumo de mercadorias.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) afirma que as nações mais ricas reduziram em média 2% de suas emissões entre 1990 e 2008. Mas reconhece que se for considerada a importação de mercadorias, na realidade houve um aumento de 7%.

Fortalecendo esses dados, aparece o maior estudo já realizado com relação ao comércio internacional e as emissões de gases do efeito estufa.

Com o título de “Growth in emission transfers via international trade from 1990 to 2008” (Crescimento da transferência de emissões via comércio internacional entre 1990 e 2008), a pesquisa foi publicada na edição desta semana do Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e afirma que as reduções normalmente apresentadas não se referem à realidade global.

“Nosso estudo mostra pela primeira vez que as emissões relacionadas com mercadorias produzidas em países em desenvolvimento são muito maiores do que os cortes obtidos pelas nações ricas sob o Protocolo de Quioto que importam esses produtos”, resume o principal autor do estudo, Glen Peters, do Centro Internacional de Pesquisa Climática e Ambiental em Oslo.

Isso significa que seria preciso mudar o modelo pelo qual é calculada a pegada de carbono.

“O foco em emissões territoriais da forma que é feito pelo Protocolo de Quioto não é eficiente para reduzir as emissões. Deveriam existir mais mecanismos de controle e monitoramento ao longo de toda a cadeia de produção e comércio das mercadorias”, explica Peters.

Segundo o relatório, as emissões do comércio entre nações saltaram de 400 milhões de toneladas de carbono em 1990 para 1,6 bilhões em 2008.

Além disso, o real ranking dos maiores emissores do planeta apresentaria os Estados Unidos bem à frente da China. Com sua economia baseada na exportação, o gigante asiático ficaria em segundo lugar se fossem ao menos divididas as responsabilidades pelas emissões causadas pela produção de mercadorias para atender mercados de outros países.

“Se continuarmos olhando apenas para as emissões territoriais, estaremos vendo somente metade do problema”, resumiu Peters. O estudo conclui que o comércio internacional seria responsável por 26% de todas as emissões de dióxido de carbono em 2008, mais do que todo o desmatamento em florestas tropicais, por exemplo.

Autor: Fabiano Ávila 

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