1 de ago de 2010

A economia do aquecimento global

Relatório "State of the World 2009 - Into a Warming World", produzido pelo WorldWatch Institute, demonstra as oportunidades e desafios para a descarbonização da economia.

No Brasil, uma experiência de plantio direto faz com que produtores aumentem sua produção e diminuam em 90% a erosão do solo. Na Suíça, a taxação do consumo de energia e gases de efeito estufa estimula a substituição de combustíveis fósseis por biomassa, reduzindo em um terço as emissões.

Em Mali, o governo oferece informações sobre o tempo diretamente aos agricultores para ajudá-los a gerenciar as variáveis climáticas. Essas experiências, relatadas na 26 edição do relatório "State of the World 2009 - Into a Warming World" (O Estado do Mundo 2009: Em um mundo em aquecimento), produzido pelo WorldWatch Institute, demonstram as oportunidades e desafios para a descarbonização da economia a partir de estratégias combinadas na área de energias renováveis, eficiência energética, uso da terra e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

O relatório reforça a necessidade de redução das emissões de carbono em 85% até 2050, em comparação aos níveis de 1990, para evitar uma mudança climática irreversível. O investimento em novas tecnologias verdes, a colaboração entre países, além da adaptação de estruturas para lidar com o aquecimento global são as principais mudanças necessárias para essa transição. "O Protocolo de Kyoto, lançado em 1997, deu os primeiros passos para a conscientização da necessidade de descarbonização da economia.

Negócios ligados a essa área estão na ordem do dia e as multinacionais brasileiras líderes do mercado nacional deverão refinar as suas estratégias para aumentar a competitividade numa economia de baixo carbono", avalia Eduardo Athayde, diretor do WorldWatch Institute no Brasil.

Segundo o State of the World, a reversão do cenário dramático de mudanças climáticas para os próximos anos requer ainda um esforço coletivo que envolva suporte governamental, políticas de transição para matrizes de energia renovável e mudanças no atual estilo de vida e consumo.

De acordo com Rubens Born, diretor da ONG Vitae Civilis, uma política pública com marcos regulatórios estáveis também se faz necessária para ampliar as possibilidades para os negócios. "Para o setor privado, políticas estáveis são importantes para criar investimentos.

De um lado, está faltando que as empresas enxerguem novas oportunidades no campo de tecnologias verdes, mas também precisamos rever marcos regulatórios que ajudem a superar as pendências existentes."

Diante do desafio do aquecimento global, negócios sustentáveis estão - segundo o cientista político Sérgio Abranches - necessariamente vinculados a uma economia de energia limpa. "A tendência é de aceleração dos investimentos em tecnologias que promovam essa transição para a economia sustentável. No período de 2030 a 2050, as tecnologias, que estão hoje em vários estágios de maturação, se tornarão disponíveis, acelerando a transição."

Na opinião de Abranches, esse processo levará a uma renovação de praticamente todo o capital fixo de infraestrutura, ao longo de duas ou três décadas e também a gerar o próximo ciclo longo de expansão da economia mundial. "Só nos Estados Unidos serão criados algo em torno de 40 milhões de ‘empregos verdes’ em duas ou três décadas", destaca.

Estratégias combinadas
O State of the World 2009 também apresenta projeções preocupantes que podem ocorrer nas próximas décadas. O aumento da temperatura eleva os riscos para sistemas naturais e humanos fundamentais e pode provocar graves consequências como a redução na capacidade de produção de alimentos dos países emergentes e falta de água para milhões de pessoas.

Com base nesse horizonte, o estudo destaca os dez desafios principais que devem ser adotados como parte de qualquer estratégia para mitigação, adaptação e resiliência às mudanças climáticas (confira no box).

Em relação aos gases de efeito estufa, o relatório afirma que a atual tendência de aumento nas emissões pode elevar de quatro a seis graus o clima do planeta até o final deste século. Esse dado se revela sombrio ante a constatação recente do IPCC de que o nível seguro de aquecimento seria no máximo de dois graus. Ainda que as emissões sejam estabilizadas, a temperatura continuará aumentando por várias décadas.

O documento do WorldWatch Institute reforça ser técnica e economicamente viável reduzir as emissões de gases de efeito estufa com rapidez suficiente para que as concentrações atmosféricas possam ser limitadas. Para Abranches, nesse cenário, surgem diversas possibilidades para o setor privado. "Energias renováveis, tecnologia da informação verde, ‘green building’, criação de novos materiais, produtos recicláveis e mercado de carbono são as principais oportunidades de negócio nessa perspectiva."

Por isso, construções mais inteligentes que prezem pela eficiência de recursos ganham cada vez mais espaço nos centros urbanos. Os edifícios utilizam cerca de 40% da energia global. Um design integrado com múltiplas medidas eficientes - destaca o estudo - pode reduzir o uso de energia no mínimo pela metade em comparação aos edifícios convencionais, gerando economia de mais de 80% em alguns casos. "Há um campo interessante na área de construções e cidades sustentáveis.

Os prédios devem ser mais inteligentes do ponto de vista ambiental, pois o setor habitacional tem um papel importante na demanda de energia por representar economia para quem utiliza e constrói", avalia Born.

Além do segmento de construções, a geração de eletricidade também se mostra uma área de alto consumo de energia primária (41%) e emissões de CO2 (40%). Por isso, as fontes renováveis estão entre as opções de menor custo para reduzir as emissões de carbono e a dependência de combustíveis fósseis, apesar de representarem apenas de 2% a 3% da demanda mundial.

"Acredito que seja válido para o Brasil buscar o suprimento de suas necessidades energéticas na alternativa eólica. Mas antes, temos que mudar sistemas, hábitos, processos industriais buscando melhorar a nossa eficiência energética", ressalta Born.

Segundo Abranches, a adaptação de automóveis para utilização de combustíveis mais limpos também ganha força na economia de baixo carbono, principalmente em sua segunda etapa. "Essa indústria vai se mover para os carros híbridos e elétricos, até que a tecnologia de células a hidrogênio esteja dominada comercialmente. A primeira etapa é a mais difícil e de maior incerteza, entre 2009 a 2030 - a fase do investimento. Quanto mais rápido agirmos, menos alteraremos a quantidade e a gravidade de mudanças climáticas já inevitáveis", avalia o cientista político.

Emergentes X industrializados
Para elaboração do State of the World 2009, a WorldWacth Institute escalou 47 autores, a maior parte deles de países em desenvolvimento que são mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global. Os pesquisadores reforçam a necessidade de um esforço financiado em sua maioria por países e pessoas com uma situação financeira mais saudável para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

De acordo com Athayde, do WWI, a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos e novos marcos regulatórios internacionais sinalizam uma perspectiva positiva. "Os Princípios do Equador, PRI (Principles of Responsable Investments, da ONU), DJSI-Dow Jones Sustainability Index, adotados pelo mercado, determinarão os próximos passos. O efeito Obama pressionará positivamente as metas da Cúpula Mundial do Clima, de Copenhague, e fará uma grande diferença na economia mundial", ressalta.

As consequências ambientais do comércio internacional têm tido cada vez mais destaque - ressalta o relatório - e as emissões incorporadas aos bens comercializados também representam um desafio particular. Países em desenvolvimento, como a China, têm cada vez mais demanda para exportar aos países industrializados, gerando mais gases de efeito estufa que ficam em sua própria conta e não daqueles que consomem seus produtos.

O fato de consumidores em países desenvolvidos serem indiretamente responsáveis por uma proporção significativa das emissões de carbono da China é mais um argumento a favor da visão de que esses países deveriam auxiliar os emergentes a reduzir o lançamento de gases de efeito estufa por meio de assistência técnica e financeira e criação de fundos para tecnologias ambientalmente amigáveis.

Para Born, não é apenas correto que os países desenvolvidos forneçam suporte tecnológico àqueles que precisam se adaptar e lidar com as consequências das mudanças climáticas, mas também ético. "Esses países criaram um situação melhor do ponto de vista do bem-estar social e econômico, mas acabaram contribuindo mais com o aquecimento do planeta.

Se pensarmos historicamente, 80% das emissões desde a revolução industrial são dos países industrializados. Nesse contexto, o Brasil pode exercer a mediação para tentar quebrar um pouco o impasse e auxiliar na busca de uma solução satisfatória", propõe.

Segundo o especialista, o País deve tomar medidas efetivas nas áreas mais emissoras de gases poluentes para garantir uma perspectiva segura. "Está na hora de o país tirar o pé do acelerador e começar a diminuir suas emissões. Isso deve ter início pela área de desmatamento, mas precisa evoluir para outros setores, como transportes, construção e energia. Introduzindo medidas sustentáveis o quanto antes, conseguiremos criar uma tendência positiva para o futuro", avalia.

Revista Idéia Socioambiental

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