24 de jul de 2010

Meio ambiente e desenvolvimento

Em artigo intitulado "Desenvolvimento predatório versus Desenvolvimento Sustentável, o conflito do século XXI", de 2006, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jorge Luiz Ferreira, enfatiza o cenário de desigualdade econômica entre as populações e a acelerada degradação das condições naturais básicas e necessárias à sobrevivência na Terra. Segundo ele, não há como fugir do debate: o principal mote de conflitos para este século é a continuidade, ou não, do atual modelo de desenvolvimento .

O documento destaca que até o final do século 18, antes do início da Revolução Industrial, a atividade exploratória dos recursos naturais mais expressiva resumia-se à devastação de florestas européias para a obtenção de lenha, então o combustível mais utilizado. Por volta de 1830, a população mundial era de aproximadamente 1 bilhão de habitantes e apenas 2,5% destes habitavam aglomerados urbanos. De lá pra cá, o uso intensivo dos combustíveis fósseis e o aumento da população impactaram consideravelmente a pressão sobre os recursos naturais.

De acordo com o livro Do desenvolvimento econômico ao desenvolvimento sustentável, do professor Renato Caporali, da Universidade Federal de Minas Gerais, o conceito de “desenvolvimento econômico” vigente começou a ser utilizado a partir do final da Segunda Guerra Mundial, num contexto de formação de instituições mundiais de harmonização de interesses e de práticas econômicas – caso do Banco Mundial, do FMI e do que viria a ser, décadas mais tarde, a Organização Mundial do Comércio (OMC); bem como de uma teoria econômica que depositava na ação regulatória do Estado a possibilidade de manutenção de taxas de crescimento elevadas. “O conceito deu fundamento a uma ideologia altamente otimista que previa o crescimento econômico indefinido, visto como um processo de utilização cada vez mais intensivo de capital, de redução do uso de mão-de-obra, e de utilização extensiva dos recursos naturais”.

O clima na imprensa
Dos textos jornalísticos sobre mudanças climáticas publicados por 50 jornais brasileiros, entre julho de 2005 e junho de 2007, 2,6% traziam uma discussão sobre crescimento econômico, enquanto 9,1% abordavam a temática do desenvolvimento sustentável.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
Embora tenham existido anteriormente algumas iniciativas de preocupação com os impactos do desenvolvimento no meio ambiente – a primeira lei britânica que regulou a poluição atmosférica data de 1863, por exemplo –, os avisos de que algo deveria mudar na forma como o ser humano está se relacionando com o meio ambiente começaram a ganhar visibilidade, a partir da década de 1960.

Vale lembrar que já em 1962 o livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, trouxe à tona de forma pioneira a questão ambiental e a interferência humana. Nesse estudo, a pesquisadora americana constatou que o uso indiscriminado de agrotóxicos prejudicaria o planeta, além de acarretar sérios riscos de câncer e outras doenças.

Os relatórios do Clube de Roma (grupo criado em 1968 e formado por cientistas, industriais, banqueiros, políticos entre outros membros de diversos países) também marcam a história do debate sobre a agenda de desenvolvimento. O objetivo do grupo é discutir e analisar os limites do crescimento econômico levando em conta o uso crescente dos recursos naturais. Em 1972, o relatório Os Limites do Crescimento lançou um debate global sobre do futuro da humanidade e do planeta. A ele se seguiram A Humanidade no Ponto de Inflexão, em 1974; e Sem Limites ao Aprendizado, em 1978.

Entre as principais conclusões do grupo, à época, constavam como maiores problemas da humanidade a industrialização acelerada, o rápido crescimento demográfico, a escassez de alimentos, o esgotamento de recursos não-renováveis e a deterioração do meio ambiente. Qualquer semelhança com o que vivenciamos hoje não é mera coincidência.

O Clube de Roma surgiu a partir da necessidade de pensadores de diversas áreas, que se auto-denominavam “sábios”, de discutir maneiras para mudar o mundo. A idéia era a de que o grupo se tornasse um espaço de reflexão sobre o futuro. Após 30 anos do lançamento de seu principal documento – Os Limites ao Crescimento –, o grupo divulgou em 2002 Sem Limites ao Conhecimento, mas com Limites à Pobreza: Rumo a uma Sociedade do Conhecimento Sustentável.

No relatório, o então presidente do clube, o príncipe da Jordânia Hassan Bin Talal, disse que “os desafios do desenvolvimento sustentável estão ainda mais prementes e ainda mais complexos. Os tremendos progressos tecnológicos das décadas recentes têm permitido o crescimento industrial continuado; mas a lacuna entre os ricos e os pobres tem alargado, e a pressão sobre os sistemas complexos e delicados de nosso planeta é maior que nunca. Com certeza, não podemos prosseguir nesse caminho de desenvolvimento: ele simplesmente não é sustentável”.

Talal destacou ainda a necessidade de uma abordagem holística para reorientar os desenvolvimentos tecnológico, econômico e social para o benefício da humanidade

(Mudanças Climaticas).

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