11 de jul de 2010

A economia precisa ser sustentável e verde

O carvão cria o mais nítido dilema: é um combustível poluente, mas é usado em todo o mundo porque é barato.

Em todos os países, estes tempos difíceis de crise econômica levaram algumas pessoas a dizer que deveríamos recuar do enfrentamento das mudanças climáticas e que devemos adiar quaisquer iniciativas de avanço rumo a uma economia com baixas emissões de carbono.

Segundo esse argumento, os governos devem concentrar-se firmemente na recuperação econômica, e não na recuperação de nosso clima. A adoção de processos industriais verdes, com baixa produção de carbono, para não falar da obtenção de um acordo mundial sobre mudanças climáticas, dizem, precisa esperar e ser posta em banho-maria.

Mas as ações que o Reino Unido está iniciando mostram tratar-se de uma falsa escolha opor as ajudas à economia ou ao ambiente. No Reino Unido, sabemos que a rota para construir nossa economia para o futuro consiste numa recuperação sustentável e em emissões com baixo teor de carbono. Essa mudança é central para a criação de empregos e para o crescimento de novos setores de atividade econômica.

Durante a semana que passou, pusemos em prática muitas das medidas que irão apoiar essa longa mudança para uma economia com baixas emissões de carbono e verde. Nosso ministro das Finanças, Alastair Darling, apresentou não apenas seu orçamento financeiro ao governo, mas também os primeiros orçamentos de carbono. Eles impõem um teto às emissões que nosso país pode liberar ao longo de três períodos de cinco anos até 2022, e incluem uma meta legalmente imposta para, até 2022, reduzir as emissões para pelo menos 34% abaixo das emissões em 1990. Isso garantirá que poderemos contribuir para cumprir nossa meta de cortar, até 2050, 80% das emissões de gases de efeito estufa registradas em 1990.

Significativamente, o nosso objetivo é cumprir o estipulado nos orçamentos de carbono mediante um foco em ações domésticas, sendo que o primeiro quinquênio incluirá limites zero a créditos internacionais, fora do esquema de comercialização de direitos de emissão da União Europeia (UE). E pretendemos apertar ainda mais o orçamento, desde que obtenhamos a aprovação do ambicioso acordo mundial de que necessitamos, por ocasião da cúpula de Copenhague, em dezembro.

Mas somente as metas e balizamentos não solucionarão as mudanças climáticas. Uma das questões fundamentais para nosso sucesso continua sendo como acelerar radicalmente a disseminação de tecnologias mais limpas – boas para gerar emprego, para a economia e para o planeta.

Esse avanço tecnológico é necessário, talvez, principalmente, para atacar o problema mais difícil, a saber, o carvão. O futuro do carvão cria o mais nítido dilema que enfrentamos: é um combustível poluente, mas é usado em todo o mundo porque é barato e suficientemente flexível para satisfazer as flutuações da demanda por energia.

Para solucionar essa equação, na semana passada descrevi no Parlamento britânico nossos planos para a maior demonstração mundial de tecnologia de captura e sequestro de carbono. Isso inclui:

A) Um grande impulso no front tecnológico: quatro novos projetos para comprovar a captura e o armazenamento de carbono, cada um deles dez vezes maior do que o maior atualmente em operação no mundo, e, em conjunto, significando que estamos fazendo mais do que qualquer outro país;

B) O fim do uso irrestrito de carvão: propus uma nova regra segundo a qual nenhuma nova usina de eletricidade a carvão será aprovada sem comprovar a captura de carbono, a partir do primeiro dia de operação, sobre cerca de 25% de sua produção. Aplicações que não comprovem a captura e armazenagem de carbono serão negadas;

C) Um compromisso claro de operar usando tecnologia de carvão com emissões de baixo teor de carbono, depois de comprovada: haverá uma avaliação independente sobre quando a tecnologia estiver comprovada, e quando isso ocorrer as usinas de eletricidade terão de aplicar a tecnologia não apenas a uma parte de suas operações, mas sobre 100% de sua produção.

Está havendo cooperação mundial em captura e sequestro de carbono, mas isso precisa ser acelerado, neste ano, para assegurar que o mundo inteiro se beneficie dessa tecnologia. As vantagens desse tipo de tecnologia não são apenas ambientais. Existem evidentes oportunidades empresariais e de emprego em tecnologia, processos industriais e disponibilização de energia verdes.

Todos nós ouvimos a mensagem clara e forte: o presidente Barack Obama engajou os Estados Unidos no combate às mudanças climáticas e no emprego de energia limpa. Uma reunião de líderes mundiais do G-20, presidida pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown, decidiu que a recuperação de nossa economia precisa ser sustentável e verde.

É por essas razões que acredito que o crescente consenso internacional sobre a guinada para pontos de baixo carbono apontam para esperança, e não desespero. Ao cooperarmos internacionalmente, podemos, a um só tempo, evitar mudanças climáticas perigosas e ver nossas economias em recuperação de modo sustentável. Do ponto de vista das gerações presentes e futuras, essa é a coisa certa a fazer.

Ed Miliband é ministro de Energia e Mudanças Climáticas do Reino Unido.

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