29 de jul de 2010

Capitalismo verde tira vantagem da mudança climática

Companhias como Wal-Mart buscam lucros em uma “economia pós-carbono”. Está tendência se consolidará?

Quando o governador do Estado norte-americano da Califórnia, Arnold Schwartzenegger, sentiu dificuldades para obter a maioria nas eleições de novembro, começou a dar atenção ao aquecimento global para atrair o amplo setor preocupado com as questões ambientais.

Por fim, conseguiu se reeleger. Schwartzenegger juntou-se a opositores democratas para aprovar uma lei que exige que o Estado reduza suas emissões de gases causadores do efeito estufa em 80% em relação ao nível atual, até 2050.

Como a Califórnia é a sexta economia mundial, esta ambiciosa decisão e seu status como principal incubador de tecnologias estimularão uma aceleração nas inovações neste campo. O dilema, que há tempos é um obstáculo para todo avanço sobre o problema do aquecimento global – podem os imperativos ambientais serem abordados dentro de um sistema econômico dirigido à obtenção de lucro? –, pode finalmente abrir o caminho para as grandes inovações ecológicas.

A vitória do Partido Democrata em novembro não foi tanto um apoio a este partido, mas um rechaço à oligarquia petrolífera que bloqueou todo progresso em numerosos aspectos. Como conseqüência, a exigência por novos produtos, que sirvam para uma economia “pós-carbono”, agora pode começar a desencadear uma forte demanda por parte da indústria e dos consumidores.

Se as tendências emergentes se consolidarem, a “ecologização” da economia global será conduzida não pelos ativistas ambientais, e sim por alguns dos gigantes empresariais, que foram justamente criticados por sua inatividade, e pelos próprios conservadores, que por longo tempo sustentaram que as metas ambientais e as realidades econômicas eram incompatíveis por natureza.

“A mudança climática é inevitável, e uma vez que se sabe que algo é inevitável é necessário adiantar-se aos fatos”, disse Joseph Romm, ex-subsecretário de Energia dos Estados Unidos, que previu que para 2050 todos os setores da economia mundial terão se tornado “verdes” e que surgirá um novo “supersetor”, focado inteiramente no desenvolvimento de tecnologias para a redução do carbono.

Não há maior exemplo desta repentina conversão dos antigos adversários do ambientalismo do que o Wal-Mart, a maior empresa mundial de varejo. Depois de uma assembléia de acionistas, no ano passado, seu diretor-geral, Lee Scott, comprometeu a empresa com a execução de uma série de ambiciosas metas ambientais: aumento em 25% da eficiência no uso de combustível dos sete mil caminhões do Wal-Mart nos próximos três anos e a duplicação dessa eficiência antes de dez anos; redução em 20% das emissões de gases que causam o efeito estufa em seus armazéns e centros de distribuição em sete anos; redução em 25% do lixo sólido em seus depósitos nos próximos três anos e a oferta de uma grande quantidade de produtos orgânicos.

“Por seu tamanho, eles estão forçando os fabricantes a oferecerem produtos que não prejudiquem o meio ambiente e sejam energeticamente mais eficientes, e que se convertam em norma industrial”, escreve o consultor Charles Lockwood. Muitos críticos do Wal-Mart se mostram agora cautelosos mas esperançosos de que a nova orientação reflita uma verdadeira virada.

Carl Pope, diretor-executivo do não-governamental Sierra Club, acredita que essa companhia está assumindo um sincero compromisso, embora duvide que possa alcançar suas metas mais ambiciosas. Por outro lado, com o transporte de produtos orgânicos da China para os Estados Unidos e outros mercados distantes, o único meio pelo qual o Wal-Mart pode manter seus preços baixos, pode gerar mais gases causadores do efeito estufa do que tenta reduzir com sua nova política.

Outros poderosos aliados dos ambientalistas são as companhias de seguros, que correm o risco de enormes perdas caso se concretizem as previsões sobre um cataclisma causado pela mudança climática. Com seu peso político e financeiro, as seguradoras têm uma forte influência sobre os políticos, as empresas e o comportamento individual.

A seguradora norte-americana Traveller’s Insurance começou a baixar os prêmios para as construções que economizem energia, enquanto a Swiss Re investe em novas tecnologias solares e a Munich Re em energia renovável. Com seu dinamismo e sua capacidade para a inovação, o capitalismo verde está voltando sua atenção para as novas oportunidades de mercado, com a mesma prontidão de qualquer outra empresa rentável. E isto é precisamente o que faz previsível que consiga seus propósitos.

Mark Sommer

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