21 de jun de 2010

Nicholas Stern: uma economia de baixo carbono é possível

O economista britânico Nicholas Stern ficou mundialmente conhecido em 2006, quando o relatório Stern fez com que as mudanças climáticas entrassem para a agenda de discussões do governo e das empresas de todo o mundo. Isso porque, de acordo com a pesquisa desenvolvida pelo também chefe do Instituto Grantham de Mudanças Climáticas e Meio Ambiente da London School of Economics, os impactos de não se fazer nada para conter o aquecimento global gerariam gastos equivalentes a 20% do PIB mundial, enquanto medidas preventivas demandariam de 1 a 2% do montante. Desde então, tornou-se impossível pensar em desenvolvimento sem levar em conta as alterações do clima.

O economista Nicholas SternEm evento realizado no dia 4 de novembro, na FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Stern apresentou um panorama de como está a situação do planeta quanto à quantidade de CO2 e gases equivalentes emitidos.

Atualmente, a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera é de 430 ppm, com média de emissões de 2,5 ppm ao ano e tendência de crescimento para 3 ou 4 ppm até o final do século, de modo que a concentração nos próximos 100 anos poderia chegar a 750 ppm, o que aumentaria em 50% as chances de a temperatura da Terra subir 5ºC.

Ele exemplifica a dimensão desse aumento lembrando que quando o planeta tinha temperatura 5ºC abaixo da que atingiu no período pré-industrial, enfrentava-se a era glacial e o gelo chegava à latitude de Londres, obrigando os seres humanos a se concentrarem próximos à linha do Equador.

Da última vez, há milhões de anos, que o planeta enfrentou temperaturas tão elevadas quanto as previstas para o final deste século – se nenhuma atitude for tomada para conter esse avanço – a crosta terrestre estava coberta de florestas pantanosas e crocodilos habitavam a região do Pólo Norte.

Com a analogia, o pesquisador argumenta que as mudanças climáticas vão provocar uma nova geografia física e, conseqüentemente, um novo rearranjo das ocupações humanas. “Sempre que ocorre um movimento demográfico grande, há geração de conflitos”, afirma. Para evitar situações naturais e políticas catastróficas em menos de cem anos, Stern diz que o planeta poderia suportar uma concentração de 500 ppm de CO2, reduzindo as chances de a temperatura subir tanto para apenas 3%. Essa mitigação ainda é possível desde que, até 2050, os países reduzam em 50% suas emissões – passando de 40 para 20 gigatoneladas de CO2 por ano, ou 2 toneladas per capita.

Para os países ricos, esse esforço deveria começar com vistas a uma redução de 80% das emissões e a intenção de se chegar a 90% na data limite. O economista afirma que mesmo do ponto de vista financeiro essa medida seria mais vantajosa do que deixar para resolver o problema mais tarde. A conta da indiferença comeria de 5 a 20% da renda de cada país, todos os anos, com possibilidade de crescer cada vez mais. O esforço de atingir a meta proposta por Stern demanda de 1% a 2% dos rendimentos nacionais. O pesquisador diz que muitas empresas têm organizado lobbies e pressionado os governos para não assumirem a responsabilidade de investir em tecnologias mais eficientes e que reduzam seus impactos sobre o meio ambiente, alegando que seus produtos se tornarão menos competitivos no mercado.

Nicholas Stern diz que a argumentação não se justifica, já que, com exceção de cinco ou seis setores – entre eles o de cimento, aço e alumínio – o aumento de gastos em no máximo 2% ainda é menor do que a diferença entre os salários pagos pelos americanos e britânicos e os 5 ou 10 vezes mais baixos, pagos pelos chineses. Ele ainda defende que os países ricos financiem o desenvolvimento de tecnologias limpas nos países menos desenvolvidos.

Tendo em vista que os países em desenvolvimento devem ser responsáveis pela maior parte dos 9 bilhões de habitantes do planeta em 2050, também não é mais possível que essas nações – entre elas o Brasil – adotem o discurso de que só terão alguma iniciativa em relação às mudanças climáticas quando os países desenvolvidos fizerem a sua parte. Um plano de ação brasileiro que faria com que nossas emissões de carbono caíssem para 3 ou 4 gigatoneladas per capita até 2015 seria atingirmos o desmatamento zero naquele ano. Stern também defende que, na medida em que a preservação da Amazônia é de interesse de todos os países do mundo, os países desenvolvidos deveriam investir no Fundo Amazônico.

Ainda foi salientado, durante o evento, o importante papel das empresas no diálogo junto aos governos – visto que setor público e privado têm diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto – para a elaboração de políticas públicas mais eficientes, relativas à produção e comercialização de energia limpa, ao transporte com emissão zero de carbono e ao incentivo às construções sustentáveis, entre outras. Stern também lembrou que as empresas têm uma reputação que não pode ser colocada em risco.

Desse modo, se os consumidores começam a exigir atitudes ambientalmente responsáveis das empresas, essas passam a pressionar os fornecedores para também o serem. Sobre a crise financeira, o economista disse que a última recessão tão grave quanto a que vivemos hoje foi a de 1929. Ele alerta para que, desta vez, não cometamos os mesmos erros do passado: reduzir gastos governamentais e adotar políticas protecionistas só piora a situação. Por isso, a estratégia das empresas de cortar gastos relacionados ao desenvolvimento de novas tecnologias limpas não faz parte de uma boa saída nem para o meio ambiente e nem para a economia.

“Não se trata de uma crise competindo com a outra”, diz Stern. “O que podemos fazer hoje é ampliar a demanda e estabelecer as bases para um crescimento sustentável a partir de uma economia de baixo carbono”. Nesse ponto, o Brasil teria vantagens frente aos outros países para aproveitar a dinâmica desse novo modelo de crescimento, já que dispõe de uma riqueza inigualável de recursos naturais e de matrizes energéticas limpas.

Nicholas Stern lembrou que, em dezembro de 2009, as nações vão se reunir em Copenhague para decidir quais serão as ações do mundo frente às mudanças climáticas. Para ele, essa será a reunião mais importante desde o acordo pós-Segunda Guerra Mundial. Ele acredita que países como Brasil e Índia podem propor boas soluções, mas, se até o ano que vem não chegarmos a uma definição do que fazer, ficaremos todos com a sensação de menos confiança no futuro.

Thays Prado

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