10 de fev de 2011

Energia limpa pode atender 95% da demanda em 2050


Estudo desenvolvido por WWF, Ecofys e OMA defende que em 40 anos quase toda a eletricidade consumida no planeta poderá ser produzida a partir de recursos renováveis e aponta ações necessárias para reduzir uso de combustíveis fósseis

Uma pesquisa realizada pela organização ambientalista WWF, pela empresa de consultoria energética Ecofys e pelo Escritório para Arquitetura Metropolitana (OMA, em inglês) afirma que é possível que 95% da energia utilizada no planeta provenha de fontes renováveis em 2050, reduzindo em pelo menos 80% a emissão de gases do efeito estufa. Hoje em dia, apenas 13% da produção energética deriva de fontes renováveis.

Stephan Singer, editor da pesquisa e diretor de políticas energéticas da WWF, diz que o estudo leva em consideração tecnologias existentes e disponíveis. Novas tecnologias em desenvolvimento, que ainda não são utilizadas nem comercializadas, poderiam possibilitar que o percentual de energia renovável chegasse a 100%.

Para isso, o relatório recomenda que sejam seguidos dez passos para um “futuro 100% renovável”:
-promover e desenvolver as atuais e as novas fontes de energia renovável;
-comercializar e fazer o melhor uso de fontes de energia sustentável em diferentes áreas;
-promover práticas domésticas sustentáveis a fim de estimular uma melhor distribuição de energia;
-investir em produtos que sejam eficientes e utilizem energia limpa; não desperdiçar comida;
-reduzir, reutilizar e reciclar (os três Rs); incentivar o uso de transporte público;
-desenvolver pesquisas em eficiência energética e energias sustentáveis;
-certificar que as energias renováveis sejam compatíveis com metas ambientais e de desenvolvimento e estimular acordos e cooperações sobre energias renováveis e de eficiência energética.

De acordo com o relatório, atualmente 1,4 bilhões de pessoas não tem acesso a energia segura. Apesar disso, outros países têm um consumo energético elevadíssimo, o que pode comprometer a utilização de combustíveis fósseis e a própria produção de energia. “Se todos consumissem a quantidade de energia que um cidadão de Singapura ou dos Estados Unidos utiliza, as reservas mundiais de petróleo se esgotariam em nove anos”, diz o estudo.

Ainda segundo a pesquisa, resíduos das fontes fósseis e nucleares, que atualmente correspondem a 80% da energia mundial, são muitas vezes despejados na natureza sem segurança, e podem ser nocivos por até dez mil anos. Outros dados alarmantes, como a extinção de 15% a 37% das espécies do planeta caso não haja mudança nesse panorama, estão expostos na pesquisa.

Apesar de possível, a mudança das atuais fontes energéticas para meios renováveis terá que superar muitos desafios. Um deles são os investimentos necessários para aumentar a geração de energia renovável. Segundo a pesquisa, nos próximos 25 anos, os investimentos devem passar de um €trilhão por ano a €3,5 trilhões.

A partir de 2040, tendo reduzido a dependência em combustíveis fósseis em 70%, estes gastos começariam a se pagar, superando os custos. Em 2050, a demanda de energia seria 15% menor que em 2005, apesar do crescimento da população mundial para nove bilhões de habitantes, e seriam economizados anualmente cerca de €4 trilhões, em razão da eficiência energética e dos custos reduzidos dos combustíveis alternativos.

Algumas informações apresentadas mostram que o potencial das energias renováveis é muito grande, mas ainda mal aproveitado. Conforme o estudo, se 0,3% da área do deserto do Saara fosse utilizada para a instalação de usinas de energia solar, a energia produzida poderia alimentar toda a Europa ou se 0,1% da energia dos oceanos fosse aproveitada, poderia ser gerada energia para 15 bilhões de pessoas.

E mais: “a implantação de um milhão de novas turbinas eólicas onshore e cem mil offshore poderia suprir a eletricidade de um quarto do planeta” e “fontes geotérmicas podem fornecer dez vezes a energia mundial, e em 2050 um terço do aquecimento de edifícios poderá ser feito através desta fonte de energia”.

Toda a implementação destas novas tecnologias limpas acarretariam na economia de 60% dos custos com a iluminação mundial, por exemplo. Hoje em dia, são gastos nessa área cerca de $230 bilhões por ano.

Algumas ações já têm sido tomadas atualmente mesmo em países pobres ou em desenvolvimento, como a instalação de microhidrelétricas no Nepal para suprir a demanda energética doméstica ou a implantação de usinas eólicas em comunidades do interior do Kênia.
No Brasil, o relatório usa como exemplo fazendas na região de Ribeirão Preto, que anteriormente utilizavam toda a sua área para o pasto.

Agora, os fazendeiros trocaram a grama pela cana-de-açúcar para produzir bioetanol, e aproveitam os resíduos da cana para alimentar o gado.

Mas apenas a mudança nas tecnologias de produção de energia não assegura um desenvolvimento sustentável. O estudo também aponta o estilo de vida de hoje como algo a ser transformado. Para isso, aponta algumas soluções: a redução no consumo de carne, o melhor aproveitamento dos alimentos, mais uso dos meios de transportes públicos, utilização de combustíveis menos poluentes nos meios de transporte etc.

Isso não significaria a diminuição da qualidade de vida. Ao contrário, placas fotovoltaicas nos telhados, lâmpadas de LED de baixo consumo, janelas energeticamente eficientes e carros elétricos podem contribuir para um aumento do conforto da população.

James P. Leape, diretor geral da WWF Internacional, afirma que o relatório não só mostra que a transição para energias renováveis é possível, mas que também tem alto custo-benefício, fornecendo energia para todos de maneira que possa ser sustentada pela economia mundial e pelo planeta.

“A transição representará muitos desafios, mas eu espero que este relatório estimule governos e empresas a enfrentarem esses desafios, e ao mesmo tempo, possibilitar uma economia renovável. Não há nada mais importante do que criar um futuro sustentável”, completa.

O relatório vem ao encontro da pesquisa divulgada esta semana pela empresa Accenture e pelo banco Barclays Capital, que sugere que a Europa precisará investir €2,9 trilhões, ou 25% de seu PIB, para alcançar sua meta na redução das emissões de carbono.

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